Na edição de hoje, o destaque do dia é para uma história que, é bem possível, uma boa parte da população de Pinheiro Machado, presenciou, principalmente aqueles que tem no mínimo 40 anos.
O Pinheironline, que há anos tem como um dos seus parceiros, Nael Rosa, que, com o Eu Falei, site criado e gerido por ele desde 2012, é colaborador de nosso veículo, resume mais de duas décadas da vida de Domício Mendes, pinheirense igual ao jornalista e radialista, cujo relatos são surpreendentes.
“A partir do pouco conhecimento de quem nunca esteve em um banco acadêmico para cursar, Inclusive a faculdade de Jornalismo, eu entendo que algumas reportagens são como Best Sellers, principalmente os de suspense, em que o livro prende o leitor de tal maneira e, até a última página, ele se mantém mergulhado na história, conseguindo até mesmo visualizar as cenas, apenas com o texto à sua frente, o que o deixa cada vez mais atento e curioso quanto ao conteúdo contido no parágrafo seguinte”, opina Rosa, que em 7 de janeiro deste ano completou 21 anos ao microfone e 27 anos na comunicação como um todo.
Ele frisa que não há tal pretensão, mas que entende serem, os primeiros parágrafos descritos, vistos por ele apenas como tópicos de algo que, talvez, levará você à seguinte conclusão precipitada, mas, compreensível: o final foi triste, infeliz!
“Não sou nada além que um contador de histórias, mas confesso: essa me impactou, na verdade, me chocou, já que eu e Domício completamos, em 2002, na Escola Manoel Prisco, o Ensino Fundamental, obviamente, dado à nossa idade, fizemos isso na modalidade supletivo e eu sequer podia imaginar que, já ali, ele se drogava.”, resume Nael Rosa, afirmando que, desde então, não havia mais visto o amigo.
Vamos à reportagem!
DOMÍCIO :
“Foram 23 anos usando, sem falhar sequer um dia, álcool, maconha, cocaína, crack e merla.”
“Sem dinheiro para comprar mais pedra e para comer, diante de tanta fome busquei, encontrei no lixo e comi, uma coxinha de frango.”
“Tive casas, carros, motos e um salário que hoje gira em torno de R$ 19 mil. Cheirei e fumei tudo.”
Questionamentos a quem leu até aqui: o destino para quem fez ou faz isso, qual é? Cemitério? Então, a seguir, algo que, diante da pouca e, às vezes a quase nenhuma compreensão humana, é “impossível"!
DOMÍCIO:
“Quando conheci uma vida de cara limpa, me apaixonei por mim mesmo e hoje, ao receber quem viaja até mil quilômetros para aqui buscar socorro, estou convicto: não, isso não tem preço, não existe dinheiro que pague!”
Aos 52 anos, Domício Mendes recebeu a reportagem do site Eu Falei, em sua comunidade, situada há três quilômetros da BR -293, acesso ao município de Morro Redondo, onde abriga, em áreas separadas, no momento 37 homens e 12 mulheres, todos, como costuma chamar, seus irmãos.
Mas sobre esse trabalho social e que se estende ainda a Pelotas, vamos, com certeza, destacar, mas será em outro momento, afinal, o lar só existe devido à trajetória de vida de seu idealizador e gestor, vida que, por quase duas décadas e meia, foi de autodestruição do corpo, da mente e do espírito.
No início da entrevista, o primeiro impacto, Domício revela que as drogas passaram a integrar sua rotina aos 11 anos, quando bebeu pela primeira vez, porta de entrada que o levou a, literalmente, colocar tudo fora e, quando fazemos tal citação, não nos referimos apenas ao patrimônio conseguido por ganhos mensais que, já na atual moeda, o Real, hoje não seriam menos de R$ 19 mil.
“Atuei como supervisor de montagem e sou qualificado para quatro processos em solda, o que me permitiu trabalhar na Petrobrás, e em quatro refinarias de petróleo e duas plataformas para a extração deste. Eu ganhava tão bem que atualmente meu salário poderia chegar aos R$ 25 mil. Tive três casas: uma na praia, em Tramandaí, a primeira, em Pinheiro Machado, e outra em Sapucaia, motos e carros”, recorda o adicto.
Ele segue, e conta que esteve muito bem financeiramente cinco vezes, mesmo usando todo tipo de droga e, com isso, não é difícil imaginar o que aconteceu.
“Fumei e cheirei tudo. Em uma das oportunidades, trabalhava e fazia isso drogado, na Esfera Montagem Industrial, em Porto Alegre. Por achar que ia morrer se ali continuasse, sensação causada pelas drogas, pedi demissão e, ainda assim, recebi uma ótima rescisão que gastei toda fumando e cheirando”, confessa Mendes, para, posteriormente, revelar um dos episódios que sintetizam sua falência como ser humano.
“Quando o dinheiro terminou e eu nada tinha nem mesmo para comer, com fome, decidi revirar uma lixeira na Rua Anchieta, em POA, e nela achei uma coxinha de frango. A vergonha foi imensa, tanto que, antes de comê-la, olhei para os lados para ter certeza de que ninguém via aquilo.”
O soldador dá sequência ao relato contundente, e detalha uma das cenas que ainda estão em sua mente, ocorrida em Pinheiro, sua terra natal, no dia que, mesmo já sendo o que pode ser chamado de um “morto vivo”, também causou o mesmo: vergonha, quando a mais velha das três filhas, à época com não mais que 17 anos, demonstrou a dimensão do que tinha e sentia pelo do pai.
"Eu estava imundo, indo comprar crack. Ao atravessar a Praça Angelino Goulart, a vi, mas ela correu e se escondeu. Aquilo me doeu tanto, mas ela tinha toda razão e hoje entendo o que fez e sentiu”.
Quando indagamos se isso foi o que pode resumir sua degradação, ele afirma: “não!” Foi a que aconteceu em 19 de agosto de 2010, na Rua Barão do Rio Branco, a uma quadra da Tiradentes. Me encontrava deitado num colchão, com uma camiseta toda rasgada, sem nada para comer, imundo, sem ninguém da família querendo se aproximar e com um câncer de garganta causado pelo uso do crack na lata e com cinza de cigarro, ali, eu já me encontrava no fundo do poço”, admite.
Diante dos registros vivos, mas, que não mais o assombram, o responsável pela comunidade Maria de Nazaré, continua o retorno nos anos anteriores à sua salvação, fazendo questão de relatar outros episódios causados pelo fascínio às drogas, e que o manteve por muito tempo como um zumbi, vagando por ruas de diferentes cidades e estados. Agora, Domício fala sobre o dia em que conheceu o crack, o fazendo emitir uma frase mórbida e que indicava seu certo fim doloroso: “quando eu rumava para o Mato Grosso, soube que em uma cidade tinha muita maconha para vender. Mas desci do avião em Araucária e, ali, comprei e usei crack pela primeira vez. Foi quando conheci e senti o “beijo da morte”, e minha destruição foi rápida, foi grave!”
O câncer causado pelo uso da substância, geralmente letal e que o levou, inclusive, antes da grave doença física, dar um de seus veículos (Chevette) a um traficante para garantir não menos que 8 gramas para o uso diário (ele chegou fumar até 15 gramas diariamente) reduzindo seu peso para penas 46 quilos e, consequente, à internação, sendo este episódio o divisor de águas para o despertar, para o início do processo que permite o comparar ao que a mitologia chama de Fênix, o fazendo renascer das cinzas.
“A vez em que minha irmã foi me buscar no hospital, em Sapucaia, necessitou parar o carro quatro vezes para que eu saísse do veículo e respirasse. Além do câncer, também estava com quatro úlceras no estômago, o que me fez ficar 14 dias sem comer e 12 dias sem ir ao banheiro, evacuar”, relembra.
Fizemos outra indagação, cujo só há uma resposta, sendo esta, óbvia: como você não morreu?
“Foi Deus! Só aguentei porque ele quis!”, reconhece Mendes, ressaltando trazer consigo os três pilares que permitem pessoas com sua história sobreviverem e deixarem as drogas no passado:
espiritualidade, trabalho e disciplina, o que aprendeu ser o caminho para a empatia, boa vontade, amor ao próximo e uma vida organizada, sendo isso tudo, o alicerce para, até hoje, não ter tido sequer uma recaída desde que deu o primeiro dos 12 passos imprescindíveis para que alguém torne-se um, então usuário.
Ele resume: “depois de 23 anos me drogando diariamente, causando minha falência física, espiritual e financeira, decidi que era a hora de parar e, pela primeira vez, conheci uma vida de cara limpa. Gostei tanto dela que me apaixonei por mim mesmo.”
Mendes amplia: “a literatura do programa nos faz entender ser essencial admitir nosso total fracasso. Isso abre as portas para a recuperação. Não dou brechas para uma recaída, mas reconheço que isso aumentou minha luta para não me drogar outra vez. Colabora também, sair semanalmente às ruas de Pelotas, ajudando pessoas que fazem o que eu já fiz e que estão, como por anos, me encontrei.”
Ao final da entrevista, Domício falou de felicidade, de coisas que lhe dão alegria, inclusive, à alma. Entre estas, a filha que um dia ele envergonhou.
“Hoje tenho total compreensão do que ela sentiu. Mas, sobre a satisfação que trago comigo, estão, entre outras situações, a ocorrida no Natal passado, quando chegaram tantas mensagens pelo meu WhatsApp, estas enviadas de todo o RS, mas ainda da Bahia, Paraná, Santa Catarina, enfim, de vários cantos do Brasil e até de outros países: Uruguai, por exemplo, sendo estas remetidas por pessoas que passaram pela Nazaré e hoje reconstruíram suas vidas. Algumas já viajaram até mil quilômetros para se socorrerem aqui. Isso não tem preço, não existe dinheiro no mundo que possa pagar e causa imensa alegria ao meu coração”, externa.
Ao concluir, ele outra vez, admite: “quando eu tinha tudo que o mundo me dava, era uma pessoa extremamente infeliz. Hoje, tendo novamente uma família, meu filho, todas as minhas filhas de volta e meus netos, afirmo: agora sim, tenho convicção de que não sou somente um homem, mas um pai e um avô, totalmente feliz!”
Reportagem: Nael Rosa
Nenhum comentário:
Postar um comentário