Você está cansado Flávio?
"Não! Quando a gente faz o que ama, é prazer, não é trabalho!"
A resposta objetiva, sem pestanejar, veio no começo do resumo dos 38 anos como motorista da Prefeitura de Pinheiro Machado, completados em maio quando, finalmente, se “aposentou”.
O termo anterior ao ponto final, recebeu aspas porque, onze dias após ter atingido fim do ciclo que permitiria o descanso, em dois de maio, aniversário da terra natal, ele se apresentou para pegar o volante e dar sequência à história e profissão que, antes de qualquer outro fator, o “humano” precisa vir à frente, afinal, eles (motoristas da Saúde), nessa longa estrada da vida, lidam, inclusive, com a dor do seu semelhante.
Flávio Augusto Lima Dutra, o Flavinho do Valdomiro, uma alusão ao pai que, assim como ele foi funcionário público do município e, por décadas conduziu a caçamba que dava suporte à rede de iluminação pública, atendeu ao pedido do prefeito Ronaldo Madruga e recuou do merecido descanso e, agora, já não sabe quando, de fato, vai deixar as pedaleiras e a direção.
Aos 56 anos, ele, talvez, não se veja sem cortar asfalto transportando pelo Estado, pessoas que são conduzidas para não só sanar a dor, mas também, buscar esperança de não mais viver o drama envolvendo doenças que precisam de hemodiálise, radioterapia e quimioterapia.
Ciente de que ele se emocionaria, indagamos algo do tipo: “o que você viu da vida?”.
Flávio engasgou, silenciou por segundos e encaixamos outra pergunta: você está chorando, Flavinho?
“Sim! Eu e meus colegas ouvíamos de uma menininha um pedido: “tio, faz alguma coisa pra minha dor passar”.
As lágrimas brotaram dos olhos ao lembrar da pequena Raissa, de sete anos, que residia no bairro Promorar e que faleceu dentro do carro de um colega no trajeto para fazer hemodiálise.
“Não tem como não sentir. Ela é uma das lembranças que tenho, pois era impossível chegar no hospital, encaminhá-la para a sessão e ir almoçar como se nada eu tivesse visto ou escutado. Tu desaba ao ver um anjo sofrendo”, emocionado, confessa.
Tomar para si parte das dores do semelhante é algo comum, mas não é regra diante da humanidade que está cada vez mais doente e capaz de maldades inimagináveis para quem tem um bom coração, mas ele afirma que, nessa função não tem como ser diferente ou indiferente.
Certamente, o “ser humano” Flávio, foi moldado ao também guiar ambulâncias durante as tantas décadas ao volante, pois, de uma das inúmeras emergências que participou, ele também não esquece.
Entre as lembranças ou experiências que não gostaria ter ou vivido, uma mulher de apenas 40 anos, cujo médico acompanhante da paciente resumiu o que viria a seguir, logo ali, no ponto conhecido como Restaurante 49, em direção a Pelotas.
"Foi horrível. O doutor pediu pra eu tocar que era grave. Corremos, mas, até o 49 ela teve nove paradas cardíacas. A perdemos e, quando o médico bateu na janela (código para óbito) a filha foi ao desespero e repetia para eu continuar porque a mãe ainda tava viva". Nesse trecho, a voz de Flávio denuncia mais uma vez a emoção, mas ele continua:
"A filha dela vinha ao meu lado e, em desespero, implorou pra eu seguir porque o médico "tava" errado: "toca moço, não para! A minha mãe tá respirando. Ele tá errado, ele tá errado", dizia a guria. Meus Deus!", exclama Flavinho.
Mas, ao decorrer da entrevista, o filho da tia da Nádiva, a tia da merenda que marcou a infância de muitos pinheirenses quando crianças, também sorri e demonstra imensa satisfação, principalmente, ao afirmar que, mesmo rodando em média 130 mil quilômetros por ano, em quase quatro décadas jamais sofreu um acidente.
Essa afirmativa está embasada na consciência de que, desde 1988 ao conduzir os carros da SUCAM, na verdade, não é ele que está na direção.
“Nós temos muita fé. Na hora de partir e de voltar, eu peço proteção ao meu bom Deus e à Nossa Senhora Aparecida”, afirma o então guri que, já aos 4 anos, corria na volta de Valdomiro pelo Parque Rodoviário onde as máquinas e veículos se encontram, o pai com quem ainda teve tempo de ser colega, conquistando a graça de trabalhar na mesma função, mas sendo o seu Neido, também motorista, sua inspiração.
“Ele, que já foi embora, foi casado com minha prima, a professor Dolores, e sempre me ouvia dizer: Tio Neido, quando eu crescer, também vou ser motorista que nem tu”.
Ao finalizar, o “pai” dá conselhos para recém começaram ou pretendem seguir essa profissão que lida com a vida, doenças e, infelizmente, até com o óbito de alguém.
“Tem um gurizão, dos novos, que recém está começando. Ele me chama de pai e pergunta o que deve fazer. Dou dicas e conselhos. Resumindo, digo: “meu guri, em primeiro lugar, tenha amor pelas pessoas. Ninguém acorda e sai na madrugada para entrar em um carro da Saúde para ir passear. Um bom dia, boa tarde, enfim, um carinho, além de não tirar pedaço, pode ser meio tratamento para quem sofre, portanto, faça a tua obrigação e um pouco mais”.
Reportagem: Nael Rosa