Reportagem: Nael Rosa
"Do cemitério meu irmão não sai mais, mas eu estou é muito feliz. A sensação, o sentimento, é de satisfação e espero que ele não saia mais da cadeia”.
A declaração é forte e tão intensa quanto a dor que ela também sentiu diante da maldade extrema praticada por Jair dos Santos Lima, hoje com 37 anos e que, após mais de 10 horas em frente ao juiz, ao Conselho De Sentença, familiares das vítimas e a curiosos, ouviu do magistrado Frederico de Lemos Carneiro, a maior sentença já proferida pela Justiça em Piratini: 91 anos:e seis meses de prisão por duas mortes, uma tentativa de homicídio e um estupro, este, de uma jovem com deficiência mental extrema.
A responsável pela declaração exclusiva ao Eu Falei Repórter News é Gina Noelcy Barreto, 65 anos, irmã de Noé Gustavo Barreto, o Bordogue, antes de ser assassinado, uma das pessoas mais queridas do Assentamento da Rubira, às margens da BR 293, 2º Distrito de Piratini, na Zona Sul do RS.
Temendo não suportar a emoção e passar mal o ficar de frente com o homicida, Gina não participou do julgamento realizado na Câmara de Vereadores do município, mas, ao saber do desfecho, conversou com a reportagem e relembrou não somente como era o irmão, mas ainda, a cunhada, outra que foi assassinada em março de 2023.
“A justiça do homem foi feita. Não há nada que se compare a dor que sentimos e que ele nos causou. Meu irmão era uma pessoa boa, vivia carregando os amigos e vizinhos para o hospital quando alguém precisava. A Suzana não podia ver ninguém mal. Ela doava roupas e pão quando alguém com fome aparecia”, relembrou Gina, ao citar então cunhada, outra executada a tiros pelo assassino que, ainda não tendo sido descoberto, teve frieza de ajudar a abrir as covas e carregar os caixões até as sepulturas.
“Eu, meio aos atos fúnebres, usei a palavra e disse: “quem fez essa maldade está aqui, presente”. Acertei, tanto que, o Jair, além de ajudar a abrir as covas e preparar a massa com cimento, disse o seguinte ao me ouvir falar que haviam feito uma covardia com minha família: “quem fez isso, fez bem-feito, ninguém nunca vai descobrir quem foi”, recordou à época, outro familiar dos Cremonini Barreto, entrevistado pelo Eu Falei.
Jair era pessoa de convivência comum e extrema confiança da família e, também, incumbido da missão de cuidar da filha especial do casal, mas que se aproveitou da ausência dos pais para tocar as partes íntimas da moça e, a seguir, cometer a conjunção carnal, estupro que ficou comprovado por exames posteriormente realizados.
Ao tomar conhecimento, Bordogue, 55 anos e Suzana, 49, adiaram a comunicação do fato à polícia para o dia seguinte, sendo este o erro fatal e que permitiu a Jair valer-se do conhecimento do acesso aos cômodos da residência e executar seu plano no intuito de encobrir o crime.
Na madrugada, Lima foi até a casa da família e, enquanto o casal dormia, postou-se na janela do quarto, apontou uma arma de grosso calibre de onde desferiu o primeiro tiro em Bordogue, o que acordou Suzana, que fugiu para o quarto dos filhos.
Os mesmos gritos despertaram o caçula I.C.B, atualmente com 13 anos, que, antes de ser também baleado com quatro tiros, fez um pedido ao algoz, pois reconheceu Jair, mesmo que este estivesse encapuzado, gritando repetidamente: “para, Jair, para! Abaixe essa arma, não mate a minha mãe!”
O apelo foi ignorado e Suzana foi executada em frente ao pequeno que, a seguir, cambaleante, mas, por não ter sido atingido em pontos vitais, fugiu, escapando com vida ao ter a sorte de ser encontrado e levado a um hospital de Pelotas, onde passou por procedimento cirúrgico e teve a sua vida salva pela equipe médica.
O advogado Francisco Luçardo, que acompanhou todo o caso e atuou junto ao Ministério Público como assistente da acusação, falou sobre a sentença imputada a Jair.
“Penso que, diante da gravidade dos crimes, todos hediondos e com mais de uma qualificadora, as penas foram adequadas. A defesa não conseguiu provar suas teses de negativa de autoria e o júri acolheu todas as teses da acusação, resultando na forte reprimenda ao denunciado pela enorme tragédia que causou à família das vítimas”, comentou Luçardo, que, a seguir, concluiu ao avaliar os 27 anos para cada um dos dois homicídios consumados, 18 anos pela tentativa de homicídio e 19 anos pelo estupro contra vulnerável.
“Ficou uma vítima deficiente sem a proteção da mãe, e um menor, todos sob a responsabilidade do irmão maior. A justiça foi efetiva!”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário