Reportagem: Nael Rosa
Resumidamente, ao ser provocada pelo Eu Falei Repórter News a falar novamente sobre a tragédia, o questionamento feito por uma das viúvas foi: “será que desta vez, os eles ficarão na cadeia?”
A indagação da entrevistada, cujo o conteúdo integra a matéria, é compreensível diante do entra e sai do presídio, ocasionado pelas tantas brechas existentes no Código Penal Brasileiro, lacunas que permitiram até o mês de julho, liberdade aos irmãos Edelmiro e Armando Mendonça Furtado, 51 e 56 anos respectivamente, que ganharam o título de "Os xerifes do seu Armando", alusão ao pai já falecido, dado ao comportamento criminoso no Corredor do Kubitschek, zona rural de Piratini-RS, ao realizarem, armados, blitz nesta localidade, parando e revistando carros.
Edelmiro, o Miróca, que à época era soldado da Brigada Militar até ser expulso, junto com Armandinho, pelo que apurou e constatou a investigação da Polícia Civil que, inclusive se amparou no laudo pericial, executaram, em março 2016, os também irmãos Horaci e Hermínio da Rosa Ávila, vizinhos dos assassinos, que alegaram, logo após acionarem a BM, que a dupla, morta ao ser crivada de balas dentro de um Chevette, sem nenhuma chance de defesa, estavam roubando gado de sua propriedade.
Após a prisão dos “Xerifes” poucos dias depois do crime, o delegado Rafael Vitola Brodbeck conversou com o Repórter News, parceiro do Pinheironline, oportunidade em que justificou sua decisão de prendê-los a seguir também, de uma enorme pressão popular que contou com uma manifestação em frente à delegacia, da qual participaram mais de mil pessoas.
“Já a partir das primeiras conclusões da perícia, passei a duvidar desta alegação dos então suspeitos. Indo além, mais tarde, tive convicção de que, o que de fato houve na cena foi na verdade uma execução”.
Ele acrescentou: “inicialmente não tínhamos motivos para duvidar da versão do policial envolvido, afinal, na região ocorriam muitos crimes de abigeato. Mas as informações iniciais dos peritos me fizeram começar a pensar que o argumento dado por ele não era verdadeiro, pois além do constatado, também o ouvi em depoimento”.
Ao longo dos anos, destes os períodos em que os criminosos estavam encarcerados, foi ferrenha a batalha entre defesa e acusação para manter preso ou em liberdade, os autores dos dois homicídios qualificados. Em 2020, Armando e Miróca foram sentenciados a 18 e 23 anos de reclusão respectivamente, júri que, no ano seguinte foi anulado e essencial para que, logo a seguir, ambos fossem postos em liberdade.
Em 10 de julho deste ano, o Ministério Público tornou a obter êxito e, Armando e Miróca foram sentenciados pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), que bateu o martelo para que a dupla retornasse ao encarceramento e, finalmente, cumprir suas penas agora fixadas em 22 anos e oito meses para o ex brigadiano, e 17 anos e seis meses para Armando Marcos.
Alda Maria Domingues da Cruz, 43 anos, viúva de Hermínio, sempre mostrando coragem e, ao mesmo tempo, temor ao falar sobre os assassinos do então marido, disse que a nova decisão da Justiça causa um misto de sensações
“Ao mesmo tempo que nos sentimos aliviados, estamos com os pés atrás. Eles são psicopatas e tenho medo que novamente saiam da cadeia ou ainda queiram, devido ao ódio, fazerem, mesmo de dentro do presídio, outra maldade contra nós”, verbalizou.
“Sou mulher, assim como também é a minha filha. Nossa casa fica no caminho para as propriedades onde tudo aconteceu e, por isso, eles passavam aqui várias vezes em velocidade reduzida e, às vezes, abaixavam o vidro. A morte dos guris deixou traumas e consequências em todos nós", acrescenta Alda, referindo se também à filha, atualmente com 21 anos.
Também conversamos com Marcos Ávila, 56 anos, irmão das vítimas e que, em desespero na manhã da descoberta da execução de Néco e Hermínio, buscou a reportagem ao subir, gritando as escadas que davam acesso à rádio Nativa FM Piratini-RS, para pedir ajuda, o que, dado ao transtorno ocasionado pelo choque, revela não recordar.
“Não lembro desse episódio. Meu desespero era enorme. Essa ferida ainda está aberta, sangra, dói. Por isso não gosto de falar. Não há nada a comemorar com a volta deles para a cadeia. Do que aconteceu só restaram dor e tristeza. Não deveriam nunca ter saído de lá. Se fosse em outro país, era perpétua ou seriam mortos. Mas, como aqui é Brasil…”, ironiza Ávila.
Ele conclui, demonstrando indignação pela falsa justificativa dada pelos condenados, para a execução dos irmãos.
“Tentaram esconder a verdade, mas ela sempre aparece. Nunca roubamos nada de ninguém, não tivemos essa criação (educação) de pegar o que não é da gente. Faltam palavras para definir essa barbaridade. Tristeza foi o que nos restou”.

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